quarta-feira, maio 11, 2005

#3

Proclamar que toda a pessoa(...) possui, antes de tudo, o direito de viver, e que a sociedade deve repartir com todos sem excepção os meios de existência de que dispõe. (...) Proceder de modo que, a partir do primeiro dia da Revolução, o trabalhador saiba que uma nova era começa para ele; que doravante ninguém mais se verá forçado a dormir debaixo das pontes, ao lado dos sumptuosos palácios; que não haverá fome enquanto houver alimentos, que ninguém tiritará de frio ao pé dos armazéns de peles; que tudo será de todos, tanto na realidade como em princípio, e, finalmente, que se produza na história uma revolução que pense nas necessidades do povo antes de lhe dar lições sobre os seus deveres. Nada disto poderá realizar-se com decretos, mas somente pela posse imediata e efectiva de tudo o que é necessário para assegurar a vida de todos.
Kropotkin



só desde o estrangeiro
podo pronunciar o meu nome

topografia da esperança

vozes
vozes sedentas que vam até a raiz do amor
disseccionadas
aniquiladas
enfiam-se e desenfiam-se
e sem buscar-se
topam-se
alá onde o teu silêncio clama polo real

entre o eu e o ningures
feridos na invocaçom
entre o ti e o desconhecido
o horizonte respira-nos sem encoros
anfíbios das trevas

respirar deslocados
através da cicatriz
que anuncia o lugar onde nom chegam as palavras
zenital rompente
canto

quando exigimos
o infinito
estamos
a engendrá-lo

caminhavamos polo bosque
hieroglífico que intui a comunicaçom
além dumha boca extinta
inabitável
condenada á mentira da luz rede
que expande o sentido trás a pegada que deixárom os teus lábios
rede que fecunda o sonho
maná

terça-feira, maio 03, 2005

#2

Tudo se encadeia nas nossas sociedades, é impossível uma reforma parcial sem quebrar o conjunto. No dia em que se ferir a propriedade privada numa das suas formas, reconhecer-se-á a necessidade de a atacar em todas as outras. Impô-lo-á o próprio sucesso da Revolução (...). O que receamos é que a expropriação se faça numa escala demasiado pequena para ser perdurável, que o arrojo revolucionário fique a meio caminho, esgotado em meias-medidas que não contentem pessoa alguma e que produzindo uma reviravolta formidável na sociedade e uma paralisação nas suas funções, não se tornem viáveis, semeando o descontentamento geral e originando fatalmente o triunfo da reacção.
Kropotkin


stalingrado

gás para todos
até que a veia poida madrugar
no clamor do abismo latejante
fervença de mil e umha raizinhas
que tentam apreijar a salgada transparência
que se está a fazer pedra letra morta osso liquidificado

na defesa da traqueotomia internacionalista
desarquipela-me a gorja

o silêncio é o oráculo que sustém a placenta do salouco
diálogo da desolaçom

abertos desde a boca até o ano
nem a chaminé podia conter
o imperativo categórico do cadáver

quem nom lavou as maos com a nossa sede?

em filiformes farangulhas deixa-me ascender
pola faminta carícia do arame de espinho
contra a duríssima cúpula celeste
contra todos os contras
contra todos os sentidos
ascender
cántico da desembocadura

mentres a terra siga fervendo
sepulta a bágoa
até
a
vitória
sem
pre


Marcos Abalde.

segunda-feira, maio 02, 2005

Poema de Ossip Mandelstam.

Encontrar-nos-emos outra vez em Petersburgo
como se ali tivéssemos enterrado o sol,
e então pronunciaremos pela primeira vez
a palavra abençoada sem sentido.
Na noite soviética, no negro de veludo,
no Vácuo de veludo negro, os olhos adorados
de mulheres abençoadas ainda cantam,
nascem as flores que jamais morrerão.

sexta-feira, abril 29, 2005

#1

Derruindo, edificaremos.
Proudhon
A miséria foi a origem primária das riquezas .Foi ela que criou o primeiro capitalista, porque antes de acumular a "mais valia" em que tanto se gosta de falar, era preciso que houvesse miseráveis que consentissem em vender a sua força de trabalho para não morrerem de fome. É a miséria que tem feito os ricos.
Kropotkin

potável
nom era a claridade do laio pedra angular
deixa-me fugir pombas som os teus olhos
como escuro ar
como deserto sem fenda
como covas de leons
cara a mim cara a ti guinda-se o laio ainda sem percorrer
cara aqueles meus desconhecidos de peito fechado que fai emudecer
que jamais o haverám de saborear orfos
era a barca
quando o irmao siamês bebeu o leite amargo nom a cinza sussurrarom-me
algum dia teremos direito a respirar
fediam a desterro
sumidouro esqueleto berço imperial esnafrador de rostos
sem que os corvos traiam o longe que descende até as entranhas do soldado
como nom podias saber que debaixo da tua língua nom há oásis possível?
antes que os meus lábios acabem devorados polas trevas
fai que a fame me enterre
extirpa-me
deste oceano de sangue semeador de espelhos
luz sem esperança sem raiz
pulverizada
toleima

Marcos Abalde.

quinta-feira, abril 28, 2005

A porta vizinha.

Tenho saudade do amanhã que perdimos nalgum canto. Tenho saudade do eu que saiu na procura dum nós, e já é tarde, e a sopa enfria. Tenho saudade porque desde que vivemos a obscuras, caminhas acariciando as paredes. Porque carregas com a história de cumprires os conselhos tatuados. Sigue louvando o sábio, embora nos arrastrara ao abismo. Sigue descendo face o próprio povo, até afogares no alheio. Cercam os parques onde jantas, decretos, grelos, sombras com cara de assédio. As desventagens da realidade som muitas, mas ganhares no seu jogo é umha vitória que nom conhece minúsculas, que nom dá topado um crânio que a imagine nem o vento dumha voz que a agite.
Vitória Galego

quinta-feira, abril 21, 2005

Mais um poema de Mário.

E o trato foi un pacto fechado,
un calibrar de destellos,
dous mundos a se tocar sen ter
a consciencia de existir.
Respiracións tensas, tintineos máxicos,
para que eu teña hoxe na man
o obxecto do trato,
un instrumento de tortura
ou un canto á liberdade.
Estaba o noso nós no obxecto
a gravidade coa que o metropolitano
ollaba aos indios do Norte.
Estaba a tortura e o fechar dun puño
sobre as plumas até o sangue.

terça-feira, abril 19, 2005

Poema de Mário Regueira.

Lugar das mortas,
as mortas, a reixa,
a pedra xeométrica continua,
onde quen a aldraxou
aldraxou os séculos que non fosen
o silencio dos sartegos.
Lugar das mortas,
vellas que coñecín noutro tempo
e quixeran bicarme,
recoñecer a miña feitura de home,
e non se atrevendo ollan e pasean.
Lugar, xa non lugar, o aborrecimento,
o valor, grandes paixóns que
se arrastran coas nubes ao lugar
das mortas,
as mortas, noción, cousa que non
nomeo,
que agarda por min
por un rexurdir de cinza.