Segunda-feira, Dezembro 27, 2004

Estrela

Escutai!
Se as estrelas se acendem
será por que alguém precisa delas?
Por que alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia,
no coração dos turbilhões de poeira;
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus,
temendo chegar atrasado,
e que lhe beija chorando
a mão fibrosa.
Implora! Precisa absolutamente
duma estrela lá no alto!
Jura! Que não poderia mais suportar
essa tortura de um céu sem estrelas!
Depois vai-se embora,
atormentado, mas bancando o gaiato
e diz a alguém que passa:
"Muito bem! Assim está melhor agora, não é?
Não tens mais medo, hein?"
Escutai, pois! Se as estrelas se acendem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.

Maiakovski.

Sexta-feira, Dezembro 24, 2004

Mares de queijo.

Quando a terça pugemos um poema de Ramiro Vidal proclamando-o como "percursor" do radicalismo, nom imaginamos que pouco depois viria como um São Nicolau indígena, ateo e vermelho, para nos deixar o maravilhoso presente das suas palavras. Mas assim foi. Editado por GZe-editora (AGAL) apareceu "Mares de queijo", para quem o quiger descarregar (desde aqui recomendamo-lo vivamente). Numha cousa estavamos errados: Ramiro nom é percursor do radicalismo. Ainda que, provavelmente, nunca se teria definido assim; "Mares de queijo" é o primeiro livro radicalista da cena galega. Ou, quando menos, dum radicalismo avant la lettre.
"Mares de queijo" incorpora, com todas as suas consequências, a problemática do sujeito e da colectividade à poesia autóctone; reconcília a producçom subcultural europeia com a galeguidade dolorosamente consciente... Noutras palavras, em Ramiro confluem a modernidade urbana e o orgulho aborígene. Nom é raro, Ramiro parece estar composto por girões de cidades, ninguém melhor como praça para dito encontro.
A quem ler o livro, dizer que é umha obra quase para ser escuitada. Nomeadamente, porque está impregnada de música. De música negra, como a negritude do subalterno.
A Ramiro, um abraço, os nossos mais sinceros parabens e o nosso ânimo para que este seja o primeiro tomo dumha obra extensa.

Terça-feira, Dezembro 21, 2004

A quem madruga...

A quem madruga:
Deus não existe.
Nom somos de aço
Nom fômos forjados
no entrechocar de dous tempos
somos filhos de terra dormida
mas podemos dizer o seu nome com fogo.
que outros calem o rumor persistente!
que outros se encaramem
ao outeiro da notoriedade!
os mediocres coagulam-se em mordaça
Nós porém ficamos atados
ao mastro dumha exclamaçom.
Somos muniçom órfã de arma
Seremos punhada
rotunda
na mesa do ceu.

Ângelo Pineda.

Ramiro...

Antes de pôr nada nosso, talvez devemos falar dos “percursores”. Poderiamos pôr vozes ultrapassadas, doutras latitudes, longíquas até… Mas temos um exemplo, do que queremos fazer, na nossa própria literatura. Além disso, é um exemplo vivo. Além disso, é um exemplo achegado. Além disso, é Ramiro. Ramiro Vidal Alvarinho.
Soubemos que está pronto a publicar “Mares de queijo” em GZe-editora e lhe desejamos toda a sorte do mundo. Por se alguém nom o conhecer ainda, deixamos posto um exemplo da visom urbana autóctone que Ramiro introduz na poesia.

Rocksteady

No meu parabrisas, a cançom nostálgica
Do desempregado de longa duraçom
Escrita em renglons tortos de orvalho

Como um rocksteady cansino
Transcorre…

…esta vida, fotograma urbano decadente.
Os bairros industriais desfilam projectados na memória
Ao ritmo do lamento de um motor

Amargo… como haxixe adulterado.

Como Peter Tosh e o pranger do seu baixo
Como a voz chorosa que canta histórias de opressom

E esta névoa, parede eterna que me acompanha
De um cenário terminal e subalterno.

Domingo, Dezembro 19, 2004


o que está na cabeça de muitos... Posted by Hello

As armas de Brixton.

"Quando petarem na tua porta
como sairás?
Com as mãos na cabeça
ou no gatilho da tua arma?
Quando a lei vinher
como irás?
Atirado abaixo na calçada
ou esperando no corredor da morte?
Você pode esmagar-nos
Você pode malhar-nos
Mas terá que responder
às armas de Brixton"

The Clash. "Guns of Brixton".

Sexta-feira, Dezembro 17, 2004

A blog do radicalismo

Bem-vind@s tod@s:
Esta página está impulsada polos redactores e assinantes do manifesto “Os tempos nom dam chegado…”, para a criaçom dum RADICALISMO literário. Os motivos som díspares. O principal é que vemos como a producçom literária galega se estanca numha série de modelos determinados e se resume nuns poucos nomes. Nomes que se arrogam umha glória provavelmente imerecida ou esgotada. Desde as suas plumas reforça-se o pessimismo enfermiço, o fatalismo metafísico, a introspecçom inacavável ou o intimismo mais autista. Em definitiva, o parnaso autóctone reproduz nas suas obras a imagem do galego ignorante, triste, desconfiado, contemplativo, paralisado diante da sua paisagem ou das suas taras… Nós pretendemos ser um doloroso terçogo nos que componhem o panorama descrito. Para tal fim, apanhamos este blog como difusor de criações poéticas, narrativas, dramatúrgicas ou de qualquer género, que estiverem em sintonia com os nossos princípios. Nom desbotaremos a crítica literária como arma, nem esqueceremos aqueles que servirom como módelo do nosso. Dessarte, começamos umha nova etapa na que o presente blog nom será o único meio a empregarmos na geraçom dumha literatura “radical”.
O RADICALISMO nom é mais do que umha coligaçom de autores que intentamos esforçadamente alargar as possibilidades expressivas da nossa literatura e levar ao extremo ditas possibilidades reconciliando a escrita e o compromiso social com Galiza. Achamos que ambos se podem reencontrar nas nossas linhas sem que esto signifique umha quebra da qualidade. Se nom acreditam nesto ser possível, convidamos a nos acompanharem nesta iniciativa criativa, moderna e fundamente aborígene.
Saudações.